Tecendo Ideias

Archive for Maio 2007

Com 100 anos de atraso…

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… o Governo Federal resolve ajudar o sertão nordestino. Pra ser mais exato, com 128 anos, porque só agora se inicia o tão sonhado projeto de transposição das águas do Rio São Francisco idealizado por D. Pedro II em 1879, ano em que uma seca histórica matou quase dois milhões de sertanejos [vide G1, dica do Blog do Jamildo]. Já naquela época, D. Pedro II contratou um grupo de engenheiros para projetar um longo canal que transpusesse parte da água que flui pelo leito do rio para outros trechos do Nordeste que sofriam com a eterna falta de água, mas essas idéias nunca saíram do papel – até agora.

Enquanto o resto do Brasil era presenteado com grandes pacotes de desenvolvimento, o Nordeste historicamente foi preterido pela administração federal, que sempre empurrou este plano para a frente. Mas isto está tendo um fim importante, já que Lula (vítima natural do problema, que por consequência foi forçado a abandonar o lugar onde vivia) resolveu sanar esta falha histórica do governo para com os nossos sertanejos. A esperança agora é que futuramente o cenário do interior nordestino deixe de ser o da eterna seca e submissão aos eternos coronéis e detentores da água. Nada de carro-pipa às vésperas da eleição, nada de espera pela chuva, nada de sofrimento pela ausência de líquido tão precioso.

Seca no Sertão Nordestino

Muitos são contra esta transposição, por considerarem o alto valor da obra (algo em torno de R$ 3,5 bilhão) e a possibilidade de prejudicar o São Francisco. Estes críticos, que mais pensam pelo lado político e particular, esquecem-se da realidade sofrida e triste do sertão nordestino, que sem água está fadado ao eterno esquecimento, e também acreditam que a perda de pouco mais de 1% no fluxo de água do rio possa vir a prejudicar sua ‘navegabilidade’. Esta obra é, sem dúvida alguma, importante para o chamado ‘boom do desenvolvimento’ que se espera para a região Nordeste nos próximos anos, e é extremamente positiva em todos os aspectos. Se haverá má-utilização dos recursos após a implantação da obra, isso deverá ser impedido pelos órgãos públicos responsáveis e pela população atenta, mas não é certo pregar sua não-implementação. Talvez porque isto incomode a muita gente importante…

Não vale a pena impedir a melhoria da qualidade de vida de mais de 15 milhões de pessoas na base da suspeita de que uns poucos deverão se aproveitar disto. Obras desta magnitude surgem como um divisor de águas (literalmente falando) na realidade de toda uma população, e os benefícios desta engenharia se estenderão por décadas. Impedir o desenvolvimento do Nordeste é um egoísmo sem fundamento e, historicamente, o Brasil deve à esta região a chance de mudar de uma vez sua realidade, para sempre.

Escrito por Evilasio Tenorio

29.05.2007 em 11:39 am

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Corruptolândia

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Eu juro que tento ser racional o máximo possível no que diz respeito à criticas aos que comandam o Brasil atualmente, mas eu juro que está ficando cada vez mais difícil me segurar. Eu nunca vi tanta gente tão próxima do Palácio do Planalto se envolver em seguidos escândalos de corrupção, e de todos estes quase nenhum se deu mal de verdade (perderam os cargos, é verdade, mas ficou nisso). É tanta gente poderosa envolvida em todas essas maracutaias, que até o presidente do Senado entrou na roda, porque tinha a pensão de sua filha paga com o dinheiro do tal Zuleiro Zuleido ‘Gautama’. E a danada da pensão era maior do que o próprio salário dele como senador! Como é que ele pode justificar que pagava essas despesas do próprio bolso? Fica difícil, mas na política brasileira nada é impossível.

Parece que esse Zuleido Veras é café pequeno diante de toda a sacanagem que está escondida no fundo desse baú. Foram milhões roubados descaradamente dos cofres públicos, e que provavelmente não irão retornar (assim como o Juiz Lalau roubou mais de R$ 100 milhões, e não conseguiram recuperar nem a metade). Eu, particularmente, não confio nem um pouco na eficiência de nossos parlamentares para resolver este problema, e muito menos no sistema judiciário. Pra mim este vai ser mais um escândalo pra entrar pra história, e fico até imaginando como serão os livros de História daqui a alguns anos, contando todas estas sacanagens.

Decepcionante ver que o Brasil está sucateado e sem chances de sair dessa situação triste. Como diz o sábio Mução, “o Brasil está na beira do abismo, e tem gente que ainda diz que ele vai pra frente”.

Escrito por Evilasio Tenorio

27.05.2007 em 12:51 am

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Romário 1000 Gols! E daí?

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O Baixinho, e o seu Gol 1000O Brasil inteiro falou disso durante a semana, e hoje depois do jogo ouvi muitas gozações, pois sou torcedor do Sport. Muitos amigos me criticam por essa posição, mas a verdade é que não estou nem aí pra essa história de Romário ter feito 1000 gols. Inegável a marca, que só Pelé foi capaz de ter. Mas, sinceramente, não sei porque tanta badalação da mídia em cima dele. Finalmente marcou esse danado desse gol, entrou pra história (e levou meu time junto), mas vai sair dos noticiários rapidinho. Falou-se tanto ao longo da semana na possibilidade do gol 1000 que o time do Sport acabou se deixando levar pela pressão, e mesmo tendo jogado melhor que o Vasco durante todo o jogo, acabou perdendo no placar, mostrando que ‘quem não faz, leva’.

O Baixinho é um cara legal (ou como dizem os cariocas, ’safa’), e todo mundo simpatiza com ele. Foi importante no tetra, um bom matador. Mas essa pressão da Vênus Platinada para torná-lo o maior ídolo brasileiro está um pouco demais. Assisti o jogo pela tv a cabo, e chegou a ser ridícula a cobertura que deram ao Peixe depois de ter sido substituído, improvisando uma rápida coletiva em campo, deixando de cobrir o jogo por mais de 10 minutos (a bola rolava e a tv mostrava o Baixinho falando), desrespeitando aos que pagaram caro por aquela programação, e que estavam mais interessados na partida, que estava boa, do que olhar Romário chorando e agradecendo a família pela enésima vez.

Não adianta a Plim-Plim tentar colocar mais essa idéia na nossa cabeça, a verdade é que Romário nunca foi um exemplo de conduta profissional. Não adianta somente marcar gols (ele tem talento para tal), mas todo o conjunto é fundamental para se considerar um bom profissional. E como ele, que fugia das concentrações, desrespeitava superiores, queria mandar no time, não treinava e nem se cuidava pode ser exemplo para futuras gerações de futebolistas? O problema é que o brasileiro só se preocupa com resultados imediatos, com o que aparece, com o oportunismo. O grande mal é que o brasileiro não leva nada a sério, e valoriza mais quem vive na farra, na malandragem, no sapatinho. E talvez aqui esteja implícito o maior desejo do povão: levar a vida na boa, sem responsabilidade, e sempre se dar bem. Aí sim Romário se encaixa, mas só aí.

Por favor, não forçemos mais a barra, deixem ele curtir esse momento e voltemos à realidade sem nos iludir. Nada contra a pessoa Romário, mas existem muitos mais esportistas aí dignos de serem os verdadeiros ídolos esportivos brasileiros. E palmas à Rede Globo, que conseguiu mexer com a população mais uma vez, provando que ainda possui o poder de iludir e manipular o coletivo brasileiro (que venha logo a Record, pelo amor de Deus).

* Por favor, não pensem que é despeito por ter perdido o jogo. Apenas a opinião de um humilde brasileiro que procura não se deixar levar (às vezes) pela pressão da mídia.

Escrito por Evilasio Tenorio

21.05.2007 em 1:44 am

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Triste relato da realidade social

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Aos 17 anos, Maria da Penha, moradora das palafitas de Brasília Teimosa, até então uma das áreas mais miseráveis do Recife, foi trabalhar na casa de um comerciante do bairro. Carlos Andrade tinha 65 anos. Era humilde, mas, diante da pobreza que o cercava, considerado bem de vida na comunidade. Seis meses de trabalho e Maria engravida do patrão. Quando soube, o comerciante compra dez comprimidos Citotec, remédio abortivo, e ordena que Maria tome as pílulas de uma vez só para matar o feto. Sem reclamar, Maria engole a metade e acaba no hospital. O médico achou pouco provável que o filho sobrevivesse.

Pouco tempo depois, sem nenhum problema de saúde, nasce Felipe da Silva. A mãe já havia sido expulsa da casa do comerciante e volta a morar nas palafitas. Passa pouco tempo. Na esperança de fugir da matança cotidiana, se muda com Felipe para o Ibura, Zona Sul do Recife. Lá, a violência de sempre. Resolve voltar às palafitas e arruma trabalho na Companhia de Abastecimento de Pernambuco (Compesa). Sem tempo, abandona o filho. O garoto vai morar com os avós maternos. Mais tarde, grávida novamente, Maria perde um bebê.

“Estava grávida, mas dois meninos armados no Coque (Ilha Joana Bezerra) vieram para cima de mim. Fiquei assustada e perdi.” Longe do pai e da mãe, Felipe cresce num cubículo calorento de apenas um vão em Brasília Teimosa. Um lugar assustador, ao lado de uma boca-de-fumo. Aos 10 anos, passa a freqüentar o Cabanga Iate Clube, na companhia do avô, pescador conhecido na região. Para ganhar um trocado, o garoto limpa os veleiros dos ricos, entre eles, juízes e empresários.

Rapidamente, consegue fazer um curso de vela e ganha um barco optimist de um dos sócios do clube. Nos fins de semana, chegava a velejar sozinho até a Praia de Maria Farinha, no Litoral Norte. Mas, de volta aos becos da comunidade, conhece as drogas. Aos 13, muda o visual e coloca a primeira arma na cintura. “Era para se defender das ameaças”, relata a mãe. Da casa do pai que o renegou, roubou o revólver 38 velho.

Pouco tempo depois, policiais militares prendem o menino em flagrante. Felipe vende o barco para pagar a liberdade. Entrega R$ 600 aos PMs e fica livre. Os outros dois amigos que estavam com ele tiveram que roubar a televisão e o DVD dos pais para não serem apreendidos. Expulso da escola pública onde estudava, na comunidade do Bode, no Pina, Felipe é transferido para um colégio estadual de Brasília Teimosa. Só fez a matrícula.

Desiste logo no início do ano letivo. No fim do ano passado, pegou um revólver emprestado na comunidade, que ficava escondido com um menino de 11 anos, e, com um amigo de 15, resolveu sair andando para assaltar. Era um domingo. Caminharam mais do que o normal e chegaram às quadras de tênis de Boa Viagem. Lá, encontraram cinco jovens de classe média. Felipe se aproximou, roubou os pertences dos garotos, montou na bicicleta do colega e fugiu. Ao notar que os meninos tinham corrido, atirou. A única bala que tinha no tambor da arma atinge a testa do universitário Rafael Dubeux, que morreu cinco horas depois de ser encaminhado ao Hospital da Restauração. Assustado com a repercussão do crime, o menino raspa o longo cabelo e é preso em uma semana.

Maria, a mãe, só soube que o filho tinha assassinado um jovem de 21 anos cinco dias depois, quando viu o garoto encapuzado na televisão. “Reconheci pelos olhos.” A mãe, que agora mora no bairro do Cordeiro, não tinha mais contato com o filho. Ainda não sabia em que unidade da Fundac o garoto estava.

* Relato da história de vida de um garoto, que, com seu ‘amigo’, assaltaram e assassinaram à sangue frio outro jovem em Boa Viagem. Texto publicado no PE Body Count, e reproduzido no Acerto de Contas. Dá pra se ver muito bem como surge a violência que tanto assusta nossas vidas, e onde o governo poderia entrar para evitar que histórias semelhantes continuem a ser escritas diariamente.

Escrito por Evilasio Tenorio

13.05.2007 em 11:43 pm

Publicado em Caindo na real